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Uma Carta

Por Flávia Cohim*


Uma Carta


Meu amor,


Essa é uma carta minha pra você. Iluminada pela lua cheia, que é quase o mesmo dizer ser iluminada pelo sol. Sol em Câncer, tudo meloso sentimental dramático visceral. Água. Que flui irremediavelmente do alto das montanhas ao mar, sempre em fluxo. Que se adapta a qualquer forma. Que às vezes brota do nada na terra e de repente uma enxurrada.


Há tempos não escrevo. Não sinto vontade das palavras. Não tenho me assombrado pelo cotidiano, nem devotado minha atenção à Vida. Tenho concentrado minhas energias e minha criatividade no passar dos dias.



No entanto, tu sabe do meu desejo, sonho, querer ser escritora. Mais que reconhecidamente, me sentir escritora. Não sei o que isso significa. Nalgum momento significou apenas brincar com as palavras e achar beleza nas letras, nos sons, nas combinações, na alquimia. Ouvia Caetano, Mautner, Zé Ramalho e queria encontrar caminho no papel pras psicodelias cósmicas mentais. Eu acredito que a mente é o universo em expansão.


Quando a brincadeira ficou séria, tive medo de escrever – embora o medo de não escrever seja sempre imensamente maior. Então cá estou no limbo. Tenho medo de que dizer o que digo seja nada a dizer. Tenho medo de tudo guardado em caixotes de racionalidade escapar – “e nos delírios meus grilos temer”. Tenho medo de o homem branco Escritor me dizer que não está bom, porque a técnica. Tenho medo de uma massa disforme me diga você fala na língua errada.


Então me pergunto. O que quero dizer? O que quero contar? De que maneira – em qual língua falo? Se domino “o dom da língua”, que fazer?


Depois de ler no curso do Escritor todas as referências de Aristóteles à Umberto Eco (não pense que falei daqueles rapazes ali em cima, mas não tenha uma coleção repleta de Karina Buhr, Isabel Allende, Adília Lopes, Alice Walker, Angélica Freitas, Nina Rizzi) e vários capítulos sobre A Jornada do Herói corri presse texto de Gloria Anzaldúa que já li diversas vezes e toda vez me emociona.


E entenda emociona: eu penso no tempo, quem tem, quem não tem, na vontade de escrever que irrompe e golpeia a caixa torácica, de dentro, de muitas moças por aí. Que escrevem suas orações, seus raps, slams, suas redações, artigos e teses. Ou que não. Que sentem? O que as alimenta? O que arrefece sua fome de palavras, do saboroso encontro dum lápis no papel? O que elas leem? Quem elas leem? Será se encontram conforto nas palavras de outras? Como transformam essa energia vital de criação cósmica transcendental transbordante?


Eu tenho feito ioga, feijão, fingido bons sorrisos. Às vezes corro e movo os quadris.


Espero que sua trajetória na escrita seja de dominar a técnica chamada A Técnica. Mas espero sempre que se lembre da insubordinação: “Muitos têm habilidade com as palavras. Denominam-se visionários, mas não veem. Muitos têm o dom da língua, mas nada para dizer. Não os escutem. Muitos que têm palavras e língua, não têm ouvidos. Não podem ouvir e não saberão.”.


Não sei se fiz sentido. Não sei se queria fazer, dar ou receber.


Te espero, te escuto, te leio.


A-ten-ci-osa-mente.


***

Flávia Cohim é bacharel em Direito (UFBA) e mestra em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismos (PPGNEIM/UFBA). É autora da zine ‘Des (Is) olada’ (Aliás Editora) e integra a coletânea As Cidades e As Memórias (Aliás Editora).



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