"Eu sou tudo aquilo que me perpassa"

Natália Pinheiro*


Ilustração de Ju


Eu sou tudo aquilo que me perpassa,

Também sou tudo aquilo que me marca

Mas sou bem mais que isso...

Só que às vezes é difícil

Lembrar

Quando todo dia é um novo luto

A cada 1 ou 23 minutos

E a dor e o cansaço vão destruindo tudo por dentro

Seguindo mais uma vez com o plano perverso de aniquilação

Que nos mata há tanto tempo...

E dói.

Dói!

Mas eu me recuso a ser puramente a dor que me cerca

Os meus momentos de crise

As minhas cicatrizes

Elas visíveis ou não...

Porque eu sou mais que isso

Eu sou imensidão!

E às vezes é preciso lembrar.

E esse poema é pra me lembrar...

Que eu não sei porque sempre preferi o doce que o salgado

Mas se fosse pra escolher um lado

Certamente eu responderia “direito”

Mesmo sabendo que é no lado esquerdo onde bate o coração

Mesmo sabendo que é no lado esquerdo onde está o povo

Com quem eu construo a revolução...

É que eu escrevo poesia com a mão direita.

E poesia é salvação!

E eu, que eternizo tanta gente

E que sei, ainda vou eternizar...

E eu, que recito pra tanta gente

Porque talvez elas precisem me escutar

Hoje estou escrevendo pra mim

Porque uma amizade me ensinou que também é preciso se salvar...

E esse poema é pra me salvar.

E pra me lembrar

De como meu verso é grito.

É revolta.

É punho cerrado.

É murro bem dado naquilo que me bate todo dia...

Mas de como ele também precisa descansar,

Respirar,

E que talvez por isso o tom dessa poesia

De como quem tenta acalmar o caos...

E lembrar.

De como há um tempo atrás eu li um livro

Pra tentar aprender a salvar o mundo

E hoje estou escrevendo uma página

(Só uma página)

Pra tentar me salvar.

Porque no meio disso tudo,

Também é preciso se salvar...

E esse poema é pra me salvar.




***


Natália Pinheiro é um aquário cheio de água, poeta e slammer, tem um coração amador que não sabe e nem quer hierarquizar amores, historiadora em formação, nascida e criada nas terras do Cariri e integrante do Coletivo Camaradas e Slam das Minas Kariri.


Ju

trinta anos de sonho e de sangue. sol em aquário, lua em gêmeos e mais um monte de ar no mapa, mas jura que tem um coração. onde queres um lar, revolução. é psicóloga. desenha e escreve para não sufocar com as forças incontroláveis que traz no peito.



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