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Um texto de Priscila Reinaldo para o blog da Aliás Editora

Priscila Reinaldo*

Ilustração de Priscila Reinaldo


hoje escutei Marisa Monte e lembrei da minha mãe. aquela trilha sonora da novela que invadia a sala e quartos da casa. berço de planos oníricos. não é necessário sentir saudade do cheiro de sabonete que fugia do banheiro abafado. não é necessário, mas é memória que pulsa e se faz presente e quando vejo já estou aqui, sem paz.


Marisa cantava, eu cantava, minha mãe cantava baixinho, acho que nunca a ouvi cantar alto. aprendi com elas a contar pras paredes coisas do meu coração e não foi difícil já que as paredes foram as melhores ouvintes do lugar. “coisas do meu coração” virou código para segredos e medos e as paredes deixaram de ser objeto morto. paredes e portas eram então, objetos livres de tensão. ninguém se importaria se elas cantassem, ninguém entenderia e o não ser entendida é liberdade que angustia. me causava inveja. eu queria ser parede também. ser meio morta.


éramos cúmplices silenciadas e sozinhas. a música nos unia. o sofá da sala era palco de performances potencialmente dramáticas, se não fosse pela timidez que mal deixava que eu me movesse entre os lugares. a sorte é que tinha a música, o rádio, o sofá e a presença melancólica da minha mãe.


foi quando aprendi a ser triste.



***


Priscila Reinaldo

Poeta, artesã e médica. Publica seu trabalho em zines, lambe-lambe e diários. Nasceu nas montanhas em 1995 e veio para perto do mar em 2021. Gosta de literatura, de café e do gato Leão.


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