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Um relato pessoal sobre o uso de Cloroquina, já que AINDA estamos falando disso no Brasil

Cibele Alexandre*

Fotografia de Virginia Munhoz


Um relato pessoal sobre o uso de Cloroquina, já que AINDA estamos falando disso no Brasil

Enquanto o mundo inteiro abandonou o uso da cloroquina como tratamento da Covid-19 há meses e diversos estudos publicados em revistas científicas comprovaram sua ineficácia e os riscos de ser utilizada em paciente com a doença, no Brasil o medicamento continua gerando polêmicas e sendo usado por alguns médicos.


Objeto de obsessão do Presidente da República, o medicamento foi amplamente divulgado, inserido em protocolos pelo Ministério da Saúde e largamente produzido, ao ponto de o Exército brasileiro diminuir a produção de outros medicamentos para focar na produção de cloroquina quando a tese de sua eficácia já havia sido abandonada em boa parte do mundo e mortes e agravamento de quadros de pacientes com Covid-19 haviam sido atribuídas à utilização da medicação. Além disso, outros medicamentos ineficazes também figuraram nos gastos do Governo, como a Ivermectina (antiparasitário) e a Azitromicina (antibiótico), constituindo o chamado Kit Covid, cujos gastos permitiriam comprar quase 6 milhões de doses de vacina – seriam quase 3 milhões de pessoas vacinadas, no caso das vacinas que têm recomendação de aplicação de duas doses.


Em um dos mais recentes capítulos do caso Cloroquina, durante a CPI da Covid, que investiga a atuação do Governo Federal no combate à pandemia, o Ministério da Saúde tirou do ar a nota com orientações sobre o uso do medicamento, chegando a alegar que sua inserção no site teria sido realizada por um hacker, o tipo de mentira que a atual gestão costuma veicular na tentativa de reconstrução de narrativa.


Mas vamos falar um pouco mais de cloroquina!


A cloroquina é um medicamento antimalárico, mas também utilizado para diminuir a atividade do sistema imune. A imunossupressão é necessária nos casos de doenças autoimunes como Lúpus, Artrite Reumatóide, Espondilite Aquilosante, dentre outras. Tomando como parâmetro a maioria dos medicamentos que tomamos durante a vida, chega a parecer inofensivo a utilização desse medicamento por um curto período, afinal, quantas vezes tomamos antibióticos por uma semana ou duas e não tivemos (quase) nenhuma reação adversa? Quantas vezes tomamos algo por causa de uma dor de cabeça, uma dor estomacal ou uma lesão em alguma articulação e não sentimos nada além da melhora do quadro anterior? Quantos foram os relaxantes musculares e os comprimidos para ansiedade que não causaram nenhum mal imediato?


Estamos habituados ao tamanho expressivo das bulas dos remédios e, em contraposição, às poucas reações adversas que experimentamos. Mas é como diria sua mãe, a cloroquina não é todo mundo!, e eu vou relatar os efeitos adversos que experimentei durante os dez meses em que utilizei o medicamento. Eu sei, eu sei!, organismos diferentes, reações diferentes. Há um porém: durante esse período também estive em contato com outras pessoas que estavam usando cloroquina e Bingo!, as reações adversas, tanto em quantidade quanto em intensidade, parecem ser a regra.


First things first! Aqui começa o relato do que aconteceu até eu chegar à cloroquina, ou melhor, até a cloroquina me ser enfiada goela abaixo!


Lá no finalzinho de 2018 minha vida virou de cabeça pra baixo e praticamente parei de andar, mesmo que não existisse nenhuma explicação pra tudo o que vinha acontecendo. Como os médicos não conseguiam descobrir nada, começaram a atribuir a situação aos deuses, à vida, ao universo e tudo mais. Foram três meses de dor intensa no joelho direito, medicações excessivas e pesadas pra dor que faziam pouco efeito e muitos exames.

Em três meses passei do medo de estar com uma doença muito grave e morrer à necessidade de morrer por não aguentar mais sentir dor. Foram várias ressonâncias, raio X, incontáveis sessões de fisioterapia (que duram até hoje), incontáveis coletas sanguíneas e até uma cirurgia puramente exploratória, porque não existiam mais opções, tudo era inconclusivo ou não mostrava nenhuma alteração. Pra quem ficou se perguntando sobre segundas opiniões, tive terceiras e quartas, foram 4 ortopedistas, 3 fisioterapeutas e 2 reumatologistas envolvidos no processo, isso sem contar os especialistas que precisei depois como acompanhamento justamente por ter que utilizar a cloroquina.


Mas, ufa!, não era leucemia e foi um grande alívio ter essa certeza depois da segunda análise do material retirado do meu joelho e que poderia detectar a doença. E foi aí, com esse último resultado que apenas negava a existência de algum problema, que tive o diagnóstico de “não sei o que você tem, mas vamos tentar esse medicamento por 4 meses”. Esse medicamento era a cloroquina e por meses tive diversas reações adversas mesmo tomando a dose mínima.


O que ninguém te conta sobre a cloroquina até que você precise utilizar: se você tem algum problema renal, não pode tomar, se não tem, pode desenvolver; se você tem algum problema cardíaco, não pode tomar, se não tem, pode desenvolver; cloroquina pode causar falência hepática, parada cardíaca, cegueira, doenças metabólicas, etc. Por isso, é indicada a realização de exames antes de começar o tratamento e também um acompanhamento periódico realizado pelo próprio reumatologista e por outros especialistas como cardiologista, endocrinologista e oftalmologista, além de suplementações.


Com a primeira dose da medicação fiquei com as extremidades dos dedos dormentes. Tomei o comprimido por volta de meio dia e às 20h meus dedos estavam estranhamente dormentes. Isso durou dois meses.


Com três dias comecei a ter diarreia, que durou três semanas de forma contínua e depois passou a acontecer em episódios isolados; e rejeição à comida de forma geral, bastava sentir o cheiro pra vomitar, mesmo que eu passasse horas sem comer nada. No pior período cheguei a me alimentar apenas com água de coco, o que durou cerca de um mês. Dois anos depois ainda sinto os impactos disso e minha relação com comida mudou completamente de uma forma bem ruim.


Com uma semana, comecei a ter enxaqueca, que durou três semanas; alterações na visão, que duraram dez meses (o tempo de utilização); aceleração dos batimentos cardíacos, que durou mais que o tempo de utilização da medicação; hipoglicemia, que durou o tempo que utilizei o medicamento; e deficiência de vitamina D, que durou quase o dobro do tempo que tomei a medicação, mesmo suplementando.


Voltando à questão de que cada organismo é único e vai apresentar reações diferentes, me espantava o fato de compartilhar a vivência com um grupo grande de pessoas que passavam pelas mesmas coisas e tinham os mesmos efeitos adversos, com raras exceções. Todos os efeitos adversos começaram durante a primeira semana de uso, alguns só cessaram quando parei de tomar cloroquina.


Quantas medicações tomamos durante a vida que são capazes de causar tantos efeitos adversos em apenas uma semana de uso? Como alguém pode afirmar que a cloroquina é uma medicação inofensiva? Um medicamento que pode causar ou agravar problemas renais e cardíacos parece adequado ao tratamento de uma doença (Covid-19) que pode causar ou agravar problemas renais e cardíacos?

E

sse é um relato pessoal, uma reflexão pessoal realizada a partir de uma experiência minha, mas não faltam estudos comprovando a ineficácia e os riscos do uso da cloroquina para o tratamento da Covid-19. Resta saber: a quem, além, obviamente, do Presidente da República, interessa a produção em larga escala de um medicamento ineficaz ao invés da compra de vacinas e por quê?



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Cibele Alexandre

Mestra em Direito Constitucional Público e Teoria Política pela Universidade de Fortaleza. Pesquisadora nas áreas de Direitos Culturais e Mediação de Conflitos.


Virginia Munhoz Libriana do ano do dragão, apaixonada por papel, cadernos, canetas e livros. Escreve à mão. Adora ficção científica de boa qualidade e romances baratos. Tem rinite alérgica e tatuagens. Segundo ela os personagens e o enredo das suas crônicas são baseados em fatos e pessoas reais. Será?



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