"PAPAI NOEL E DUENDES MERGULHAM COM TUBARÕES"

Cibele Alexandre*

Ilustração de Ju


PAPAI NOEL E DUENDES MERGULHAM COM TUBARÕES

Imagine-se em uma sala de cinema. As luzes se apagam gradativamente, por um momento tudo fica silencioso e escuro, a grande tela à frente se ilumina e os trailers de outros longas em cartaz são reproduzidos enquanto você come sua pipoca. O filme começa e você percebe que está na sala errada, mas você não pode sair, por algum motivo as portas estão trancadas, você não consegue se comunicar com ninguém do lado de fora e tudo o que resta é sentar e assistir ao filme, enquanto diversos sentimentos lhe invadem pela preocupação de não conseguir sair dali.


A primeira cena lhe parece peculiar: crianças, na companhia de seus pais, passeiam em um aquário no qual um senhor gorducho e de barbas longas, vestido com a clássica roupa de Papai Noel – aquele mesmo, que figura em nosso imaginário desde a década de 1930 quando foi assim popularizado nos comerciais de um refrigerante –, e jovens vestidos de duendes mergulham com tubarões. Você ainda não sabe qual o enredo, mas algo lhe parece errado: as pessoas na cena estão de máscara e há placas indicativas de sua obrigatoriedade – alguns de fato a puxaram para baixo do nariz, a colocaram no queixo ou deixaram pendurada por uma das orelhas, claramente ignorando a necessidade de uso.


Trinta minutos de filme, a cena do aquário já não é a única a lhe causar estranheza e você já poderia até explicar o que se passa: cientistas tentam conter um vírus mortal que é transmitido de pessoa para pessoa em um país onde uma parte das pessoas não dá o devido crédito à sua letalidade mesmo com a morte de milhares de pessoas por dia ao longo de vários meses. Enquanto os cientistas orientam as pessoas a ficarem em casa, o setor comercial aposta em práticas que se adaptem aos novos padrões sanitários, como o mergulho do Papai Noel e dos duendes com tubarões, sem contato com o público, porém com contato do público entre si, ocorrendo algo semelhante em agências bancárias, com poucos indivíduos do lado de dentro e filas gigantescas do lado de fora.


Enquanto isso, o presidente desse país recusa a compra de vacinas, afirma que todos vão morrer um dia, incentiva a não utilização de máscaras - preferindo fazer campanha por um medicamento ineficaz e perigoso - e insulta a parte da população que está com medo e se manifesta contra seu governo. As UTIs seguem lotadas, o número de mortos se acumula e muitos passam a ignorá-lo, nada parece fazer sentido, você se pergunta se tantas pessoas poderiam ser tão estúpidas se a situação fosse real.



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Cibele Alexandre


Mestra em Direito Constitucional Público e Teoria Política pela Universidade de Fortaleza. Pesquisadora nas áreas de Direitos Culturais e Mediação de Conflitos.


Ju

trinta anos de sonho e de sangue. sol em aquário, lua em gêmeos e mais um monte de ar no mapa, mas jura que tem um coração. onde queres um lar, revolução. é psicóloga. desenha e escreve para não sufocar com as forças incontroláveis que traz no peito.



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