O Indivisível - Olhos: um texto de Raquel Catunda para o blog da Aliás

Raquel Catunda*


Ilustração de Raisa Christina


O Indivisível - Olhos


Ele me olha no fundo dos olhos, no âmago da alma, e não repara que nos últimos tempos tenho maquiado minhas olheiras e projetado com gestos simples e discretos os meus cílios um tanto mais pra cima. A vaidade foi tomando conta de mim de maneira silenciosa, um tanto mais por mim, inclusive, do que por ele - repito em meu íntimo com a finalidade de convencer-me um pouquinho mais. Acordo mais cedo, livro-me dos excrementos fisiológicos cuja natureza animal a ninguém atrai e volto a deitar-me ao seu lado para que, ao despertar, ele me encontre muito mais eu-mesma do que era meu-eu minutos atrás.


Na nossa casa há carinho, gargalhadas altas e cumplicidade. Minha história romântica é exatamente como descrevem nas literaturas clássicas e nos contos de fada: ninguém transa.

Reprimo os pensamentos vulgares lembrando o olhar de desaprovação de minha mãe e desço para fazer o café da manhã. Ela sempre deu conta de tudo, três filhos, marido arruaceiro, casa e trabalho, “Sozinha!!!”. Mas agora os tempos são outros, se ele não faz o almoço, pedimos marmita e fica por isso mesmo. Os tempos são outros...


Quero que ele repare na marca do fio dental no short de tecido curto! Eu não passaria o dia tão longe das minhas confortáveis calcinhas de algodão a troco de nada, o faço para que minha bunda seja olhada e cobiçada. Tocada. Tocada! Como ele me olha tão profundamente nos olhos e não repara os desejos da minha alma?


Faço planos em diversas frentes, forjo posições displicentemente insinuativas e recebo com neutralidade cada elogio, que me chega em consequência disso ou não. O que insinuo? A vida do corpo, lógico! Acostumado a enaltecer meu-eu de dentro, esqueceu-se de tocar meu-eu de fora. Com suas entranhas e entradas, ali vazias, aqui desabitadas, mas cheias de alma. Eu Sou! Sem dualidades. Ele… Me vê pela metade.


Os tempos são outros... Perdoe minha mãe, mas hoje de novo colocarei em prática outra meticulosa estratégia, mostrando ainda um tanto mais pele sem que nos falte aquele tanto grande de aura. Se tudo sair como o planejado, protagonizarei finalmente o tardio desfecho dessa obscena castidade.


***


Raquel Catunda é romancista, dramaturga e contista cearense premiada com as obras "História entre Mundos", Prêmio Rachel de Queiroz; "Espetáculo de Você", Concurso Jovens Dramaturgos" e "A Equilibrista", Coletânea de Contos Ideal Clube. A escritora também é professora, mestre em Literatura Comparada pela UFC e escreve para sua coluna cultural no Jornal Segunda Opinião e para o Blog da Editora Aliás.


Raisa Christina (@raisa.christina) é artista visual e escritora. Reside em Fortaleza, onde trabalha com ilustração, além de ministrar oficinas de desenho, pintura e arte contemporânea. É autora de "os lábios os braços os livros" (nadifúndio, 2019), "DANZA" (nadifúndio, 2018) e "mensagens enviadas enquanto você estava desconectado" (Editora Substânsia, 2014). Integra a antologia poética "Uma pausa na luta" (Mórula Editorial, 2020), a coletânea "As cidades e os desejos" (Editoria Aliás, 2018) e a "Antologia de contos LiteraturaBR" (Editora Moinhos, 2016). Colabora semanalmente com crônicas para o site bemditojor.com.




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