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"NO FUNDO DO POÇO TEM UM RALO, SE VOCÊ DESTAMPAR O RALO, TEM OUTRO POÇO"

Cibele Alexandre*


Icônica arte do cearense Militão Queiroz, criada durante a corrida presidencial de 2018


NO FUNDO DO POÇO TEM UM RALO, SE VOCÊ DESTAMPAR O RALO, TEM OUTRO POÇO

O retorno dos discursos autoritários, com início sinalizado pelo aumento da midiatização e posterior ascensão de políticos de extrema direita como Donald Trump, Marine Le Pen e Jair Bolsonaro, coloca em pauta uma realidade social da qual não tínhamos noção da dimensão, pois, como bem diz o ditado popular, o buraco é mais embaixo!, ou, como prefiro: no fundo do poço tem um ralo, se você destampar o ralo, tem outro poço.


No Brasil, nos debates políticos em todas as esferas se usa o argumento de que o mundo está muito polarizado, o que passa a falsa perspectiva de que a sociedade está dividida entre dois extremos, quando, na verdade, de um lado há um grupo de extrema direita que faz apologia à tortura, à ditadura militar, à violência de gênero, à violência contra pessoas LGBTQIA+, ao racismo, à xenofobia, entre outras em uma lista que parece não ter fim; e do outro lado está o restante da sociedade, e isso definitivamente não caracteriza uma polarização entre extremos.


Esse cenário faz parte do primeiro poço, embora seja um poço bem profundo e largo, já que atualmente lidamos com o seguinte contexto geral: mais de um ano da pandemia de Covid-19; mais de 530 mil mortos pela doença no País, com subnotificação alarmante quando se pensa na demora dos resultados dos testes, na falta de testagem e no fato de que os dados sobre o número de mortos em decorrência de Síndrome Respiratória Aguda Grave indicam mais de um milhão de mortes; incentivo à aglomeração e à não utilização de máscara pelo próprio Presidente da República; recusa de tomada de medidas de distanciamento social; recusa, atraso e diminuição de auxílio para garantir, até mesmo, um mínimo de segurança alimentar à população; patrocínio de remédios ineficazes para a doença pelo Presidente da República; atraso proposital na compra de vacinas pelo Presidente da República e seus Ministros; vacinação a passos de formiga por falta de doses; entre tantos outras problemáticas no caos vivido no País.


“Primeiro a gente tira o Bolsonaro”, depois qualquer coisa vai parecer lucro, mas ainda teremos os fantasmas da pandemia: milhares de mortos, milhares na miséria e uma economia em frangalhos justamente pela má administração da crise. No entanto, a remoção da figura que representa nossos maiores problemas faz parecer quase simples mudar a situação atual. A parte que esquecemos é que, de fato, se trata de uma representação. Mas então, o que faremos em relação aos representados? Eis o segundo poço.


Quando Bolsonaro começou a aparecer nas pesquisas presidenciais fomos ingênuos e não demos a devida atenção. Nos parecia improvável que um candidato com menos de 2% das intenções de votos pudesse ser eleito, além de seu discurso parecer absurdo e distante da realidade. Desprezamos o fato de que se tratava de um político eleito, várias e várias vezes. Não contávamos com os interesses de grandes empresários no financiamento de campanha e de disparo de fake news. Desconhecíamos os impactos das fake news. Esquecemos dos estragos que podem ser feitos pelo discurso de ódio. E, principalmente, fechamos os olhos para o fato de que a sociedade tem uma parcela de pessoas que se identificam com o que ele representa, uma parcela maior do que ingenuamente projetávamos.


Bolsonaro dá voz àquilo e àqueles que representa e seu discurso autoriza ações no sentido das concepções desses grupos. E seu discurso traz falas misóginas, homofóbicas, racistas, etc., além de trazer indicadores de ação nesse sentido ao aludir à tortura e à morte de grupos identitários que estão fora de sua concepção do que é ideal. Seu discurso autoriza violências e uma melhor organização de grupos e indivíduos com intenção de colocar em prática ações que em suas percepções são efetivas para implementar aquilo que acreditam.


O discurso autoritário funciona dessa forma, transformando os indivíduos em pequenas filiais do grupo identitário guarda-chuva, capazes de, isoladamente ou em companhia de meia dúzia deles, causar vários estragos em diversas partes. E esses estragos são violências, se traduzem em atitudes discriminatórias, intimidatórias e assassinas.


Assim, primeiro a gente tira o Bolsonaro, depois, provavelmente, todo mundo solta a mão de todo mundo e voltamos a majoritariamente ignorar a quantidade de indivíduos se identificando com esses ideais. O depois deixa a frente de resistência contra essas violências, novamente, restrita aos grupos vulneráveis que sofrem com elas. Enquanto não assumirmos, enquanto sociedade, a responsabilidade pelo nosso passado e pelo apreço aos direitos humanos e não implementarmos uma educação voltada à interculturalidade, tanto presente quanto futuro estarão assombrados pela violência.


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Cibele Alexandre Mestra em Direito Constitucional Público e Teoria Política pela Universidade de Fortaleza. Pesquisadora nas áreas de Direitos Culturais e Mediação de Conflitos.



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