Leia "Autômato", um texto de Cibele Alexandre para a Aliás Editora

Cibele Alexandre*



Ilustração de Jéssica Gabrielle Lima


Autômato

Esquecer as plantas e deixá-las morrer, antecipando seu destino envasado

Esquecer os amores e ir embora, evitando rasgar a pele e quebrar os ossos

Esquecer dos amigos, e não ter dúvidas de que te esquecerão de volta


Arrancar todos os frutos, mas não como quem os colhe inventariando cores

Deve-se utilizar afiadas lâminas e pinças precisas forjadas com o fogo do desaparecimento

E lembrar de incendiar e sufocar o solo, apagando-o da memória dos computadores anciões


Tornar-se íntimo das máquinas confeccionadas sob o signo do progresso

Para emitir novos contratos sob a luz natural das lâmpadas fluorescentes

E imprimir recibos de almas compradas pela bagatela de um pôr-do-sol por ano


Olhar-se no espelho esperando ver no reflexo os cães do inferno em seu encalço

Sentir as lágrimas escorrerem e sufocar um grito: áudio desligado com mão sobre boca

Por último, deixar que os farejadores te encontrem e constatem estar tudo em ordem


19 de setembro de 2020


***


Cibele Alexandre

Mestra em Direito Constitucional Público e Teoria Política pela Universidade de Fortaleza. Pesquisadora nas áreas de Direitos Culturais e Mediação de Conflitos.



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