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Hoje te busquei: um texto de Lizi Menezes para o blog da Aliás Editora

Lizi Menezes*

Ilustração de Raisa Christina


“Hoje te busquei, porque tu és sempre um nó, vira e mexe és uma espécie de massa indissolúvel em minha garganta, ficas no meio do caminho desse corredor estreito por onde ponho para dentro de mim as salivas das palavras não gastas. O nó não desce, nem mesmo sob o sal das lágrimas, este nodo que se aprisiona de forma imaterial e que cria corpo de saudade. Eras tu, a ausência sussurrou, ela já não grita mais. Tentei buscar-te nas imagens estáticas das fotografias, queria banhar-me, mais uma vez, em teu semblante, em teus olhos caídos, desejei-te vestido naquela blusa cinza, aquela blusa que carrega o formato do teu abraço. Não te achei, já não te acho. Perdi mais uma peça da nossa narrativa, assim o nosso jogo vai ficando escasso. Procurei o teu rosto em qualquer imagem, trilhei em vão o caminho que me levasse a ti por meio dos meus olhos e do meu coração. Nada. O vazio da ausência às vezes soa como trovão. Só queria um resgate, identificar-te em meio ao mar, nomear-te, mais uma vez, como matéria de dissabor cuja palatabilidade dá-se apenas com o tempo. Navegar nas dores e nas amarguras, mergulhar e sempre submergir. Nesse circuito, quis tornar teu nome tangível, teu estranho nome, teu nome-ausente. De novo, não te encontrei. Só recupero partes muito fragmentadas de ti. Grãos, coisas poucas, quando se aglomeram formam uma caverna sem saída, um pulo no nada. De quando em quando, amarro-me a esse nó e caio na armadilha de, mesmo presa, alimentar-te e não te deixar passar fome.”


***


Lizi Menezes

Amante da literatura latino-americana, professora e mãe de Francisca e Aureliano, os gatos. Fingidora de uma escrita poética, aquariana tão aquariana que, muitas vezes, bate o pé e diz pra si mesma que, se quiser, pode ser qualquer outro signo, afinal, os movimentos são sempre constantes e mudar é o que nos rege.



Raisa Christina (@raisa.christina)

É artista visual e escritora. Reside em Fortaleza, onde trabalha com ilustração, além de ministrar oficinas de desenho, pintura e arte contemporânea. É autora de "os lábios os braços os livros" (nadifúndio, 2019), "DANZA" (nadifúndio, 2018) e "mensagens enviadas enquanto você estava desconectado" (Editora Substânsia, 2014). Integra a antologia poética "Uma pausa na luta" (Mórula Editorial, 2020), a coletânea "As cidades e os desejos" (Editoria Aliás, 2018) e a "Antologia de contos LiteraturaBR" (Editora Moinhos, 2016). Colabora semanalmente com crônicas para o site bemditojor.com.



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