• isabelaliaseditora

"Um coração inquieto é como uma gata presa dentro de casa"

Eliana*


Ilustração de Ju


Um coração inquieto é como uma gata presa dentro de casa.

Meu coração inquieto vai explodir algum dia. Eu tenho tantos medos, ansiedades, sonhos, delírios e fantasias. Tudo ao mesmo tempo. Enquanto escrevo essas palavras, finjo que estou sentada em uma roda com mulheres poetas, e eu sou uma delas. Estão lá a Anna, Audre e Nina. Somos amigas e trocamos ideias. Enquanto escrevo isso, sinto a infantilidade desse delírio. Ser aceita com algo a oferecer em um grupo que receba o que tenho para dar. Talvez esse seja o motivo da minha inquietação. Isso já não soa infantil. Soa como adolescente querendo se enturmar. O corretor do celular queria que eu colocasse "entrar" e não enturmar. Também serve essa palavra. Entrar em algo, em alguma coisa, me encaixar. Isso já não soa como adolescente, soa como algo mais primitivo que a infância. É um chamado a existência. Eu sou. Eu existo. Não sei fazer nada. Não tenho nada para oferecer a ninguém. Como vou ser amada? Com qual instrumento vão me aceitar? Lembro da história bíblica de Caim e Abel. Abel deu o melhor, Caim deu o que sobrava. Abel agradou, Caim não. Caim matou Abel. Eu quero matar a Abel em mim. É. Isso mesmo. Eu quero inverter essa história. Não quero dar tudo de mim para as pessoas. Cansa demais. Não quero dar meu melhor, quero dar o que sobrar. Mais especificamente, o que for fruto da minha expansão. Enquanto sou pequena, não consigo crescer se me doar muito. Meu Deus ou Minha Deusa, eu mudei de assunto. Não sei o sexo de Deus, e nem quero saber, prefiro que Elu seja não binárie. Meu coração acordou às 5 da manhã em uma manhã de domingo. Isso não é da Deusa. A gata, foi culpa dela também. Ela é inquieta como eu. Mas a inquietude dela é porque ela fica presa em casa, quando poderia estar por aí "curtindo a vida adoidado". Ela mia agora, como se concordasse com o que eu estou escrevendo sobre ela. A pobi da gata vive na prisão do afeto de humanes. Gatos vivem mais se criados presos em casa. Mas, e se os gatos não quiserem viver muito? Mas viver intensamente? Será que ela é infeliz? Eu penso nisso. Penso se a gata que eu cuido está feliz. Será que os animais sentem depressão? Tomara que não. Desconfio que sim, no entanto. Não é justo com ela, porque eu a amo e sou egoísta, quero que ela viva o máximo de tempo perto de mim, por isso ela está presa em casa. Tadinha. Tadinha da gata. Tadinha de mim. Inquieta. O coração querendo que o meu corpo dance, mas eu só uso a imaginação para dançar. Então, eu acho que ele fica inquieto. Taí o motivo. Achei! Meu corpo é a casa e meu coração é a gata. Meu coração quer voar e expandir, mas eu não deixo. Por isso, ele fica inquieto. Ele fica preso e inquieto dentro do meu coração. Ele quer se expandir, para poder se doar. Ele quer estar sobrando de afeto, e não carente dele, para poder se ofertar. Na roda de mulheres poetas, eu não tenho nada a oferecer, porque não sei fazer poesia. Preciso tão somente escutar e aprender. Algum dia, seja a minha vez de declamar e eu tenha algo bonito para dar para elas. Para as mulheres. Meu coração inquieto só pensa nelas. Nas mulheres. Na poesia. Minha gata mia com força agora. Acho que ela concorda com que escrevi. Dela e de mim. Não estou em uma roda de mulheres poetas, só estou na companhia da gata, mas isso serve por agora. Acho que posso resumir o que sinto em uma frase: meu coração inquieto é como uma gata miando presa dentro de casa. Deixarei ela sair. Vou sair também. Vamos nos libertar e expandir. Algum dia.


23 de maio de 2021 – Ano 2 da Pandemia


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Eliana

Eu sou uma mulher branca gorda, cis, heterossexual. Feminista, socióloga e professora. Atualmente, estou Doutoranda pelo PPGS-UFC, pesquisando feminismo, mas já pesquisei religião. Gosto de escrever sobre cotidiano, política, religião, feminismo e sobre minhas vivências.


Ju

Trinta anos de sonho e de sangue. sol em aquário, lua em gêmeos e mais um monte de ar no mapa, mas jura que tem um coração. onde queres um lar, revolução. é psicóloga. desenha e escreve para não sufocar com as forças incontroláveis que traz no peito.


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